Redação ENEM 2018: Dados, algoritmos e comportamento

Por João Carlos Rebello Caribé

Foi uma grata surpresa o tema da redação do ENEM 2018: “Manipulação do Comportamento do usuário pelo controle de dados na internet“. Basicamente o tema central de meu projeto de pesquisa, e torna-lo popular é o objetivo deste site. Agora que o tema esta nas mentes de milhões de Brasileiros, nada mais oportuno do que comenta-los com base nesta temática e numa linguagem dirigida aos estudantes.

O que dizem os textos motivadores?

O enunciado apresenta quatro textos motivadores, que permitem se bem compreendidos construir excelentes redações.

  1. O Gosto na era do algoritmo
  2. A silenciosa ditadura do algoritmo
  3. Internet no Brasil 2016
  4. Como a Internet influencia secretamente nossas escolhas

O tema é bem complexo, e um pouco distante do campo de conhecimento da maioria dos estudantes que prestaram o ENEM. Acredito que muitos devem ter praticado uma interessante reflexão após a leitura dos textos motivadores, e produziram redações muito boas.  Alias os textos motivadores conduzem uma abordagem bem estruturada na minha opinião.

O texto 1, “O gosto na era do algoritmo”, apresenta uma abordagem positiva do algoritmo, que monitora os dados e gostos do usuário e compara com milhares de outros, para produzir recomendações cada vez mais precisas. Este texto demonstra de forma simples e clara, o conceito inicial de que os dados dos usuários são coletados e comparados com o objetivo de produzir recomendações mais eficientes. Porém no final, ele destaca que este sistema de coleta e análise de dados, através de inúmeras comparações, pode induzir um falsa ilusão de liberdade no usuário, conduzindo na verdade as suas escolhas sem que ele de fato se dê conta disto.

O texto 2, “A silenciosa ditadura dos algoritmo”,  um pouco mais crítico demonstra o poder e o viés dos algoritmos, que segundo o autor são “opiniões embrulhadas em código”. O que significa que os algoritmos que fazem estes julgamentos podem estar sendo influenciados pelas opiniões de quem os codifica. O poder se torna visível no momento em que o autor cita que o “exercito de moderadores” localizados no Oriente Médio e Sul da Ásia, avalia o conteúdo apontado a partir de sinalizações dos usuários, mas quem decide se o conteúdo vai ser eliminado e mantido são os “poderosos algoritmos”.

O texto 3, que na verdade é um infográfico, resultado da pesquisa do IBGE sobre a Internet no Brasil em 2016, e que permite delimitar e contextualizar o público que será o objeto da redação.

O texto 4, “Como a Internet influencia secretamente nossas escolhas” é o mais crítico, e o mais importante para a formação do argumento pelo aluno, pois trata diretamente da capacidade dos algoritmos influenciarem o usuário com base nos dados que este produz. O texto deixa um gancho para o tema das fake news, porém, impulsionadas por robôs e perfis falsos ao dizer: “Quanto mais informações relevantes tivermos nas pontas dos dedos, melhor equipados estamos para tomar decisões”. Mais adiante o autor fala das tensões fundamentais entre a conveniência e deliberação, levando a entender que muitas vezes o usuário compartilha o que lhe é conveniente, o que dialoga com seu ponto de vista, em detrimento do que pode ser o correto, porém não conveniente. No final, ele deixa a dúvida ao terminar o texto com “decisão informada versus obediência influenciada”.  O autor também destaca o conceito de que os detentores das plataformas sabem mais sobre nós do que nós sobre eles, e conduzirem assim suas decisões, ao dizer “Quanto mais os sistemas souberem sobre você em comparação ao que você sabe sobre eles, há mais riscos de suas escolhas se tornarem apenas uma série de reações à ‘cutucadas’ invisíveis”.

Ao retornarmos ao início do texto vemos que o autor fala de “trending topics” e “relevância”. Com estes elementos é possível desenvolver o núcleo principal envolvendo por exemplo o uso de perfis fakes e robôs para impulsionar informação falsa, que ganhará relevância ao ser compartilhada por usuários que a julgam conveniente, seja para confirmar seus pontos de vista ou para provocar quem pensa diferente.

Outra linha que se poderia adotar está justamente nas suas escolhas, que podem estar sendo influenciadas por algoritmos que ao tratarem os dados que você produz, lhe oferecem o que tem mais chance de lhe interessar. Ou ainda você poderia questionar a formação de senso comum, será que a maioria das pessoas do seu espaço social pensam como você ou será que elas foram influenciadas de alguma forma pelos algoritmos?

Uma outra linha que você poderia desenvolver na sua redação é sobre a perda de autonomia, com as aplicações decidindo por você, ao menos nas escolhas de entretenimento, relacionamento social e até mesmo qual o melhor caminho entre sua casa e sua escola. Você poderia desenvolver uma reflexão de como seria o mundo sem elas, será que você conseguiria tomar decisões? Será que você teria condições de reunir e avaliar os parâmetros para isto?

O ponto central comum aos textos é de que as aplicações coletam os dados dos usuários, os comparam, e produzem interações com base nisto, e que estas interações e sugestões podem influenciar o usuário, como já dito, pensa estar decidindo livremente, mas na verdade está sendo influenciado.

O que todo mundo pode aprender a partir desta proposta de redação?

A visibilidade deste tema, principalmente pela pertinência, atualidade, importância e timing deve levar a um debate muito importante, e quero contribuir a seguir com informações importantes e relevantes. Aliás fica aqui o convite, se quiser continuar a discutir o tema você pode comentar lá no final, que terei o máximo prazer em responder.

Se quiser aprofundar neste tema, sugiro, que leia a sua continuação, em “Uma breve história do capitalismo de vigilância“. Também recomendo ler o texto “Seus dados são você, Facebook” que mostra o quanto os dados que produzimos na Internet, sem que percebamos, dizem sobre nós, é surpreendente. Outro texto que recomendo é o “Precisamos nos desconectar do Facebook“, e por fim o texto “Como seria uma ditadura no Brasil de hoje” mostra como a vigilância no século XXI é poderosa.