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Tenho pesquisado sobre big data, algoritmos, inteligência artificial, machine learning e deep learning, todos relacionado a forma como as pessoas se relacionam e sociabilizam na internet. Quanto mais me aprofundo, mais percebo o quanto minha visão de inteligência artificial era limitada.

Acredito que a maioria das pessoas possui uma visão um tanto quanto metafórica em relação a robôs e inteligência artificial. Existe uma tendência muito comum em humanizar a tecnologia, é um legado dos filmes de ficção. Imaginamos robôs semelhante a nos, física e intelectualmente. A mesma interpretação se dá em relação à Inteligência Artificial, tendemos a imagina-la tal qual a nossa inteligência. Enquanto computadores não fizerem complexas operações cognitivas como nos, os humanos, ela não aparentará uma ameaça real, aprendemos isto nos filmes.

É difícil imaginar um robô que nem mesmo exista fisicamente, como os complexos algoritmos do UBER, Waze, Facebook, Google, Siri da Apple e chatbots por exemplo. São robôs construídos apenas por código, cuja materialidade se da na interação com o indivíduo, que muitas vezes não se dá conta que estão interagindo com uma Inteligência Artificial.

Enquanto computadores não fizerem complexas operações cognitivas como nos, os humanos, ela não aparentará uma ameaça real, aprendemos isto nos filmes.

Mas que ameaça é esta? Existe uma linha teórica que acredita na singularidade tecnológica, que é um momento no desenvolvimento tecnológico, no qual a humanidade se tornará obsoleta, o filme Matrix foi baseado nesta teoria. As teorias apontam para um futuro, que se pensa ser distante, mas pode nem mais ser futuro, e sim presente, já pode estar acontecendo de alguma forma.

Inteligência humana

A inteligência humana é um conceito complexo, ela é construida a partir de informação, cognição, relacionamentos e experiências, dentro de um ou mais contextos que possuem seus princípios e valores. A inteligência humana é dinâmica e está em constante aprimoramento, seja relacionada a profundidade, tempo, ambiente ou estímulos. A inteligência humana também é dotada da autoconsciência, o ser humano tem consciência da sua existência e dos demais seres vivos.

Uma luz no conceito veio a público em 1996, a partir de um grupo de psicólogos americanos, no documento “Intelligence: Knowns and Unknowns”, que inicia pela seguinte definição:

“Os indivíduos diferem na habilidade de entender ideias complexas, de se adaptarem com eficácia ao ambiente, de aprenderem com a experiência, de se engajarem nas várias formas de raciocínio, de superarem obstáculos mediante o pensamento. Embora tais diferenças individuais possam ser substanciais, nunca são completamente consistentes: o desempenho intelectual de uma dada pessoa vai variar em ocasiões distintas, em domínios distintos, a se julgar por critérios distintos. Os conceitos de ‘inteligência’ são tentativas de aclarar e organizar esse conjunto complexo de fenômenos.” (NEISSER, 1996)

Como dizem os autores, a definição é apenas um ponto de partida para a compreensão de um conceito complexo, o texto cita o conceito das múltiplas inteligências cunhado por Howard Gardner, e as influências nas sua construção, tais como: Efeitos de variações culturais, o sistema e ambiente do desenvolvimento do indivíduo, e aspectos biológicos. Os autores ainda consideram fatores genéticos, sociais, econômicos e culturais no desenvolvimento da inteligência.

A percepção da complexidade da inteligência humana, nos dá uma falsa sensação de tranquilidade, a partir da compreensão de que computadores jamais conseguirão replica-la de forma a consistir uma ameaça à raça humana. Será verdade?

Inteligência artificial

Inteligência artificial não é um tema recente, ainda na década de 80, existiam os chamados sistemas especialistas, programados em linguagens que permitiam alguma simulação de inteligência artificial. A inteligência artificial é baseada em redes neurais artificiais, que copiam os modelos das redes neurais do cérebro.

Não tenho a intenção de descrever o funcionamento das redes neurais artificiais, pois este texto é conceitual e não técnico, focado nos impactos sociais das tecnologias e não em sua construção e operação. Para o que se quer explicar, em linhas gerais elas são algo assim:

Um conjunto complexo de algoritmos são codificados de modo a funcionar como redes neurais artificiais, em seguida é hora de treinar esta inteligência (machine learning), e isto é feito de diversas formas, a mais comumente ilustrada é o reconhecimento de imagens. Quando a inteligência artificial já estiver bem treinada, ela pode continuar num processo cognitivo profundo, conhecido por deep learning.

Se tiver interesse em aprofundar, o texto “Types Of Activation Functions In Neural Networks And Rationale Behind It” publicado na Analytics India Magazine, apresenta em detalhes o funcionamento do modelo abaixo. Ou se preferir assista um dos muitos vídeos no YouTube sobre “Como funcionam as redes neurais artificiais“.

Animação rede neural
Reprodução: Analytics India Magazine

Fazendo um analogia com a inteligência humana, imaginemos que os complexos conjuntos de algoritmos formam as instruções de como nosso cérebro deve lidar com nossas redes neurais, e como deve interagir com nossos sensores como olhos, ouvidos, boca, tato e olfato, e nossos atuadores, como músculos em geral. Ainda quando crianças somos treinamos em tabuada, abecedário, e etc, estamos sendo assim submetidos a um processo similar ao machine learning. Depois de sermos submetidos a processos semelhantes a machine learning, construimos a partir da nossa capacidade cognitiva, o conhecimento, e habilidades para lidar com questões mais subjetivas como equações do segundo grau, derivadas, redações, e etc, estamos praticando ai nosso deep learning, de forma recursiva e profunda.

Inteligência humana x inteligência artificial

Não pretendo travar aqui uma batalha homem x maquina, mas sim, explicar de forma clara como se dá a relação e comparação entre elas. Em primeiro lugar vamos compreender o que é a Inteligência artificial no contexto real, para isto vamos recorrer a teoria das múltiplas inteligências de Howard Gardner.

Howard Gardner (1987), sistematizou a teoria das inteligências múltiplas. Pelos estudos de Gardner, o ser humano não possui apenas uma inteligência, mas pelo menos oito dimensões de inteligência: Linguística, Musical, Lógico Matemática, Visual Espacial, Corporal Cinestésica, Interpessoal, Intrapessoal e Naturalista. Gardner acredita que todos nós temos estas dimensões de inteligência, e o que nos difere é a dimensão individual em cada uma delas.

Trazendo a perspectiva de Gardner para a inteligência artificial, podemos dizer que existem milhares, senão milhões de dimensões em inteligência artificial, são dimensões muito específicas, porem extremamente eficazes e precisas. Por exemplo, o reconhecimento facial, algoritmos bem treinados possuem uma capacidade muito superior a humana para reconhecer rostos, mesmo que estejam disfarçados. Assim funciona a inteligência artificial para identificar patologias, riscos diversos, controlar sistemas de estabilidade eletrônica de automóveis, e muito mais. Por esta perspectiva você percebe o quanto já esta cercado(a) de inteligências artificiais muito superiores à sua, mesmo que em campos bem específicos.

Na questão homem x máquina, existem mais duas características importantes: A Inteligência coletiva e a degeneração tecno-intelectual.

A inteligência coletiva, que fora sistematizada, sob perspectivas diferentes, por diversos autores, como Pierre Levy, Clay Shirky e James Surowiecki. A premissa comum entre os autores é de que as inteligências de vários indivíduos agindo em conjunto, são mais eficientes do que a soma das inteligências individuais. O que se quer afirmar é que coletivos costumam pensar melhor, que indivíduos, encontrando melhores respostas para desafios, de forma mais rápida e precisa.

Em termos de Inteligência Artificial, podemos perceber que ela também tem a sua forma de inteligência coletiva. A Internet das Coisas (IoT) permite criar uma capilaridade e conectividade entre as inteligências dos dispositivos criando redes de IA que podem levar a um interessante modelo de inteligência artificial coletiva.

Um pequeno exemplo disto esta bem ai do seu lado, um smartphone consegue contar seus passos, e através de sensores e aplicações específicas, identificar se você esta caminhando ou correndo, e registrar esta informação em termos de atividade física, com dados como distância, tempo e calorias queimadas. Você então resolve adquirir um smartwatch, conectando-o ao seu smartphone, que agora tem acesso a dados fisiológicos como pressão arterial, frequência cardíaca, e através de novos sensores, praticamente adivinham o que você esta fazendo em termos de atividade física, até mesmo se esta dormindo. Com um volume maior e mais preciso de dados, as diversas inteligências artificiais dos seus dispositivos, podem juntas, traçar e manter seu perfil de atividade física com bastante precisão, inclusive monitorando sua capacidade cardíaca. Você passará a ter um sofisticado e complexo sistema de monitoramento de saúde em tempo real. Levando estes dados para o campo macro, partindo do princípio que seu dispositivo os esta enviando para as nuvens das aplicações, estes poderão modelar seus dados, em comparação com o de milhões de pessoas, obtendo padrões bem precisos e específicos, em um processo contínuo de machine learning (aprendizado de máquina) e deep learning (aprendizagem profunda), tornando estas inteligências artificiais cada vez melhores.

Agora pense, nos demais aplicativos e dispositivos que usa, e na forma como eles podem obter seus dados, uma vez que a Inteligência artificial se baseia em um volume extraordinário de dados, processados à exaustão, levando a máquina a compreender com muito mais profundidade temas específicos. Estas milhares ou milhões de hiper inteligências artificiais, juntas são muito superiores a nossa em campos específicos.

A degeneração tecno-intelectual é um fator atual, consequente da relação homem x maquina x informação. Não adianta pesquisar este termo, eu acabei de inventa-lo. Em linhas gerais, a degeneração tecno-intelectual significa que estamos perdendo capacidades cognitivas, inteligência e autonomia e ficando doentes, por conta do uso massivo de tecnologias com inteligência artificial.

Estamos há pelo menos 30 anos, dentro de um ambiente evolutivo potencializado tecnologicamente, de forma recursiva, pela informação. Neste ambiente os ciclos tecnológicos e evolutivos estão encurtando, numa velocidade cada vez menor, como consequência da recursividade. Para te dar uma ideia, imagine que seu smartphone, não existia há 10 anos, caiu a ficha?

Nunca tivemos tanta liberdade de escolha, uma quantidade infinita de informação, uma incontável diversidade de opções, inúmeras formas de comunicação e interação social. Netflix, Amazon, Wikipedia, Youtube, Facebook, WhatsApp, Instagram, Tinder, e uma infinidade de aplicações, que ficam disputando nossa atenção na tela do smartphone.

Esta disputa acaba nos deixando em um estado de “semi-atenção” permanente, basta avaliar quantas vezes olhou para a tela do seu smartphone hoje, e aquela sensação de que alguma informação importante pode estar sendo perdida? Já existe uma síndrome identificada na psicologia, a FoMo (Fear of Missing Out) que é basicamente o medo de ficar de fora, de ser esquecido(a).

Este comportamento nos isola do mundo real, coloca uma inteligência artificial entre nós e nossos amigos e conhecidos, e esta inteligência artificial, presente nas redes sociais além de escolher o que você vai ver, também escolhe com quem vai se relacionar e você nem se dá conta disto. E para manter você neste estado de semi-atenção, estes aplicativos te viciam, literalmente, proporcionando pequenas doses de dopamina e serotomina a partir da reação de outras pessoas à suas publicações, e isto é mediado por eles. Mas também reproduzem os relacionamentos tóxicos ao inserir em seu feed, publicações que lhe provoquem injuria, pois você irá reagir, produzindo mais interação. Você pode se libertar disto, eu fiz uma experiência bem sucedida neste campo, você também pode.

Este cenário pujante de tecnologias e informações úteis e inúteis, criaram novas patologias, a começar pelo excesso de informação e liberdade, parece que o ser humano não se adapta muito bem a isto, já escrevi sobre este tema. Mas existem questões que afetam efetivamente nossa intelectualidade, e que ainda estão sendo estudadas. As inteligências artificiais que estão por trás dos aplicativos, nos entregam informações sob medida, mas acabam nos colocando em um mundo raso, de conteúdo sem substância e principalmente sem diversidade, onde acabamos inseridos em bolhas de unanimidade, reduzindo a possibilidade de nos expormos ao novo, ao diversos, limitando inclusive nossa capacidade criativa.

Outra questão é que estamos entregando nossa autonomia para aplicativos, para inteligências artificiais, que escolhem por nós o melhor caminho a seguir, onde comer, fazer compras e até com quem devemos nos relacionar.

Como poder perceber, ao mesmo tempo em que estamos nos tornando uma sociedade mais doente e menos inteligente e criativa, e isto já esta sendo pesquisado, estamos produzindo dados como nunca, alimentando as inteligências artificiais que nos cercam.

O futuro da humanidade dependerá de uma reconfiguração na forma como lidamos com a tecnologia, estabelecendo formas produtivas e sadias de relacionamento, até porque estamos alimentando o “monstro” que tomará nossos empregos.

Este assunto não se encerra aqui, este texto acabou ficando muito mais extenso do que planejei, mas se leu até aqui, então vai gostar de saber que pretendo continuar explorando este tema.

Bibliografia

GARDNER, H. et al. The theory of multiple intelligences. Annals of Dyslexia, [s.l.], v. 37, no 1, p. 19–35, 1987. ISSN: 07369387, DOI: 10.1007/BF02648057.

NEISSER, U. et al. Intelligence: Knowns and Unknowns. American Psychologist, [s.l.], v. 51, no 2, p. 77–101, 1996. ISSN: 0003066X, DOI: 10.1037/0003-066X.51.2.77.

WILLIAMS, A. B. The Potential Social Impact of the Artificial Intelligence Divide. In: AAAI Symposium. [s.l.]: [s.n.], 2018.


João Carlos Rebello Caribé

Mestrando em Ciência da Informação pela UFRJ (PPGCI), turma de 2017. Membro do Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LarHud) e do Estudos Críticos em Informação, Tecnologia e Organização Social (Escritos).

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