Trata-se de uma mera hipótese, uma das muitas hipóteses que expliquem o retrocesso global, com a retomada do conservadorismo e a busca por “lei e ordem”.

No texto “O protagonismo do indivíduo na sociedade hipermoderna” de Carla Martelli, a autora descreve sobre Bauman, a questão da liberdade e segurança do indivíduo pós-moderno:

Liberdade é a palavra de ordem do indivíduo pós-moderno. Em lugar de segurança, muita liberdade. Os riscos a que todos estão expostos geram insegurança e esta advém, exatamente, da muita liberdade conquistada. Como observa Bauman ( O Mal estar da pós-modernidade, 1998, p.10, grifo do autor),

Os homens e as mulheres pós-modernos trocaram um quinhão de suas possibilidades de segurança por um quinhão de felicidade. Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais. (BAUMAN, 1998)

E é nesse sentido que o autor observa que a insegurança sob a qual vivemos nasce do excesso de liberdade, e não da opressão. Excesso de liberdade que é fruto da desregulamentação da sociedade: as instituições não têm mais o papel regulador de outrora. Sem referenciais claros, os indivíduos se angustiam diante das múltiplas e infinitas possibilidades. Mas, o indivíduo pós-moderno prefere a insegurança gerada por esta multiplicidade de caminhos a disciplinas rígidas e regras inflexíveis que produzem comportamentos padronizados. É exatamente contra a padronização e em favor da liberdade de escolha que se coloca o indivíduo pós-moderno (MARTELLI, 2011, p.151).


O que chamou a atenção no texto da Carla Martelli foi justamente este trecho “…Liberdade é a palavra de ordem do indivíduo pós-moderno. Em lugar de segurança, muita liberdade. Os riscos a que todos estão expostos geram insegurança e esta advém, exatamente, da muita liberdade conquistada…”  

A autora destaca, nas palavras de Bauman, que “os riscos a que todos estão expostos geram insegurança que advém do excesso de liberdade conquistada”. Este excesso de liberdade advém da ausência, ou menor influência dos reguladores de outrora, por conta da sua “desregulamentação”.

Trazendo esta perspectiva para a Internet, segundo Hunt Allcott e Matthew Gentzkow (2017), a formação das “câmaras de eco” é uma preocupação que vem desde o início dos anos 2000, quando a Internet permitiu uma diversidade excessiva de pontos de vista, gerando um excesso de informação levando os indivíduos com idéias semelhantes a formarem câmeras de eco. O ponto interessante é como estas câmeras de eco se formaram nas palavras do autor:

No início dos anos 2000, o crescimento das notícias on-line gerou um novo conjunto de preocupações, entre as quais a diversidade excessiva de pontos de vista tornaria mais fácil para cidadãos com idéias semelhantes formarem “câmaras de eco” ou “filtro bolha” onde seriam isolados de perspectivas contrárias (Sunstein 2001a, b, 2007; Pariser 2011). Mais recentemente, o foco de preocupação mudou para as mídias sociais. As plataformas de mídia social, como o Facebook, têm uma estrutura radicalmente diferente das tecnologias de mídia anteriores. O conteúdo pode ser transmitido entre usuários sem filtragem significativa de terceiros, verificação de fatos ou julgamento editorial. Um usuário individual sem histórico ou reputação pode, em alguns casos, alcançar tantos leitores quanto a Fox News, a CNN ou o New York Times (ALLCOTT e GENTZKOW, 2017, tradução nossa).

É interessante observar que pelo que descreve os autores, a ausência do mediador, do curador de conteúdo, e a oferta excessiva de informação, levaram os indivíduos a mediarem as informações entre seus pares com idéias semelhantes. Isto explica de certa forma a polarização na Internet, mas o que se deseja destacar, é a suposta inabilidade do indivíduo humano de lidar com a liberdade excessiva. Trazendo esta leitura para o debate inicial apresentado por Carla Martielli, através de Bauman, a hipótese a ser formulada é a seguinte:

A pós-modernidade, que teve seu marco inicial em meados da década de 80, com o fim filosofias políticas e doutrinas baseadas em alguma utopia da “sociedade do trabalho”, como descreve Paulo Ghiraldelli (2015), e com as teses mais focadas na “terra” do que no “céu”, substituindo o imaginário pelo concreto. Pavimentando desta forma a liberdade descrita por Bauman.

Esta liberdade potencializada pela Internet, que teve uma intensa penetração à partir de 2011, com a popularização do Facebook e dos smartphones dois anos depois. Diversos fatores, dentre eles a redução da curva de aprendizagem, e práticas comerciais como zero rating, popularizam não só o Facebook, como o Twitter, Instagram e WhatsApp. Isto levou a uma enxurrada de informações, principalmente para um público que não estava habituado com a Internet. O excedente informacional descrito por Allcott e Gentzkow, somados com a liberdade plena da pós-modernidade, provavelmente potencializaram a sensação de insegurança, e isto pode ter sido o ponto de partida para a prosperidade do retrocesso conservador que assola a sociedade pós-pós-moderna.

Como diz Ghiraldelli, a pós-pós-modernidade é caracterizada pela sociedade da abundância e da leveza, o que de certa forma corrobora com a hipótese apresentada:

Surge aí a “insustentável leveza do ser”. O mundo parece perder realidade por perder seriedade, então, práticas não sérias são tornadas sérias, a necessidade que desaparece diante da liberdade é reintroduzida a bel prazer como o que “seria o necessário”. A subjetividade então reaparece como um polo com algum contorno, mas agora dominada, por um lado, pela liberdade que não é mais possível de ser definida como “a consciência da necessidade”, como ensinaram Hegel e Marx, mas a possibilidade de decidir qual necessidade inventar. O sujeito, nesse afã, não deixa de ter uma autonomia estranha. Trata-se de uma autonomia que lhe rende a capacidade de escolher quem vai lhe enganar. Empobrecido pela ausência de uma Paideia ou Bildung, ele se vê obrigado a recorrer a consultores – estes, por sua vez, fingem ter formação suficiente para tornar os sujeitos em sujeitos, dando-lhes instrução e justificativa para ações a partir de manuais superficiais tirados da literatura de auto-ajuda, filósofos catastrofistas, contadores de piadas de mau gosto, personal trainings e lojas de cursinhos que aparentemente substituem a universidade. Por outro lado, há a reação a essa leveza:  surge a subjetividade dada por religiões fundamentalistas (e até terrorismo) que chamam de volta os Ícaros que querem voar longe; avisa-os da opção melhor, que é a de ficar no sério, obedecendo a gravidade e deixando a leveza de lado. No campo da verdade o perspectivismo se instaura nas melhores cabeças, nas piores tudo gira no falso conceito jornalístico de que a verdade tem dois lados ou, então, na contestação à leveza, que a verdade absoluta tem de voltar à praça (GHIRALDELLI, 2015).

Em termos objetivos, a hipótese é que o excesso de liberdade e informação, levaram o indivíduo a resgatar os mediadores e controladores, na figura de “influencers”, ídolos, salvadores, pastores, lideres conservadores, e demais personagens elencados por Ghiraldelli, na luta contra as “ameaças” libertárias pós-modernas, tangibilizadas no imaginário coletivo como a esquerda política, e as pautas inclusivas. Nos EUA isto se resumiu em “Tornar a América grande novamente”, e no Brasil em “Combater a corrupção e defender a familia tradicional brasileira”.

Sua opinião é muito importante, a hipótese foi publicada para provocar o debate, vamos praticar a ciência aberta e livre. Opine na caixa de comentários abaixo, ou publique no seu blog “linkando” para este texto.


Bibliografia

ALLCOTT, H.; GENTZKOW, M. Social Media and Fake News in the 2016 Election. Journal of Economic Perspectives, [s.l.], v. 31, no 2, p. 211–236, 2017. ISBN: 01918869, ISSN: 0895-3309, DOI: 10.1257/jep.31.2.211.

GHIRALDELLI, P. J. Modernidade, pós-modernidade e pós-pós-modernidade. Paulo Ghiraldelli Jr. 2015. Disponível em: <http://ghiraldelli.pro.br/historia/modernidade.html>. Acesso em: 26/jan./19.

MARTELLI, C. G. G. O protagonismo do indivíduo na sociedade hipermoderna. Estudos sociológicos, [s.l.], v. 16, no 30, p. 141–160, 2011.


João Carlos Rebello Caribé

Mestrando em Ciência da Informação pela UFRJ (PPGCI), turma de 2017. Membro do Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LarHud) e do Estudos Críticos em Informação, Tecnologia e Organização Social (Escritos).

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